Sobre o pintor Grão Vasco, o historiador e professor Vítor Serrão sublinha a sua técnica surpreendentemente apurada e as composições mestras, que se destacam face aos seus contemporâneos, descrevendo-o como detentor de uma “autonomia criadora”. Esta formulação é particularmente acertada, pela sugestão de modernidade, e por introduzir a ideia de uma prática que contém em si mesma um mecanismo de regulação interno.

O painel São Pedro (1529), exposto no Museu Nacional Grão Vasco em Viseu, está a ser objeto de uma experiência académica que implementou um sistema de monitorização para registar microvariações nos fatores ambientais tais como temperatura, humidade e radiação ultravioleta. Estes sensores, instalados nas costas do retábulo sob a forma de uma grelha de pontos, revelaram que a pintura vai acumulando, ao longo dos séculos, transformações subtis na sua superfície. A obra constitui-se, assim, como um organismo sensível, atravessado por forças externas e sujeito a um processo contínuo de alteração. A par da transformação da matéria, também a leitura destes ícones se molda à medida que o contexto histórico e cultural progride.

E a partir destas premissas que o trabalho de Igor Jesus pode ser entendido como uma reconfiguração contemporânea dessa “autonomia criadora”. Se n o caso do retábulo de Grão Vasco o sistema recolhe dados sobre a transformação da obra, agora o processo inverte-se: o artista subverte a natureza receptora de indicadores do mundo físico para passar a ser um emissor da dimensão epistemológica da atualidade.

A exposição Slow slow slow motion é composta por duas peças. A primeira, exposta na montra da Galeria, é uma fotografia que remete para uma máquina de escrever, distorcida através de lentes manipuladas pelo artista. Esta imagem funciona como um indício das ferramentas e processos que estruturam a peça central, antecipando uma realidade mediada, fragmentada e deformada. Ao mesmo tempo, sugere uma reapropriação da palavra e dos seus mecanismos de produção, deslocada aqui para um uso não convencional. A peça central parte igualmente de uma imagem fotográfica previamente trabalhada, que constitui a base para o desenvolvimento de um sistema mais complexo de transformação contínua.

O artista criou um programa de software que identifica, em tempo real, um conjunto de quarenta palavras (verbos) à medida que estes são publicados na plataforma X. Estas palavras, pela frequência com que aparecem, configuram um índice do discurso público do momento. À semelhança do painel de Grão Vasco, a composição de Igor Jesus contém uma grelha de pontos, em que cada um deles é associado a um desses verbos. Quando ativada a palavra é executada uma instrução do programa que produz pequenas modelações da imagem na proximidade do ponto a que corresponde. A imagem resultante adquire uma qualidade escultórica: é comprimida, distendida, reconfigurada, como se tratasse de matéria maleável, como o barro ou a plasticina. Apesar de inscrita num plano bidimensional, a peça expande-se para uma esfera fenomenológica que convoca a ideia de objeto.

Nesta obra, a linguagem assume uma natureza performativa: as palavras funcionam como impulsos energéticos que ativam a imagem a cada nova interação. Ao serem incorporadas, transportam consigo não apenas o seu significado, mas também o contexto da sua circulação, inscrevendo na imagem uma dimensão discursiva.

Se no caso de Grão Vasco a transformação da imagem decorre da ação lenta dos estímulos do contacto com a realidade, aqui, essa mutação é informada pelo fluxo contínuo da leitura dos acontecimentos contemporâneos.

Igor Jesus constrói um dispositivo prospetivo sobre o léxico e os seus impactos na modelação da imagem. Esta emergira (enquanto estiver ligada) como um espelho da realidade, construído pela repetição, a variação e a sobreposição de gestos, acompanhando uma rede de possibilidades que nunca se esgota.

Francisca Portugal, 2026

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